sábado, 19 de março de 2011

Pequenas coisas



A vida se faz nas pequenas coisas. O beijo no rosto, o gesto suave de bailarina, a brisa no amanhecer, o grilo respirando manhãs de outono, o pardal orquestrando os cantos diversos. Quando é noite e olho para o alto é que enxergo melhor minha pequenez. Quem se acha grande é porque não conhece nada de si nem da vida. Hoje sonhei com poesia. Ah, coisa antiga, me diriam. E a mim que ainda paro para olhar uma flor diferente numa mesma árvore condenada ao rigor dos homens e seus olhos de chumbo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poiésis de fevereiro já está online


A edição digital do Poiésis nº 179, de fevereiro de 2011, já está no ar.
http://issuu.com/jornalpoiesis/docs/poiesis_179

E por falar em música



Alguns municípios da Região dos Lagos têm demonstrado uma sensibilidade peculiar ao lidar com os artistas, principalmente na área musical, possibilitando-lhes uma maior exposição, oferecendo-lhes uma infraestrutura para apresentações e procurando entender de uma maneira mais ampla a importância do incremento da Cultura e do Turismo a partir da movimentação artístico-cultural. Neste verão de 2011, destaco os projetos desenvolvidos em Arraial do Cabo e em Araruama como sintomáticos desta filosofia.

Isabella Taviani, Tunai, Renato Teixeira, Flavio Venturini e Moraes Moreira foram os destaques do “Verão Musical 2011”, promovido pela Secretaria Municipal de Turismo de Arraial do Cabo no mês de janeiro e início de fevereiro. À parte a inegável boa escolha dos músicos para apresentações, demonstrando uma clara opção pela qualidade e não pela quantidade, o projeto trouxe ainda uma feliz realização: todos os shows foram abertos por cantores ou grupos musicais da própria cidade. Antecedendo as apresentações principais, o público pôde conferir o rico material apresentado por Andréia Gimenez, Evandro Marinho, Banda Condicional, Junior Carriço, Piau e Max Prates. Já em Araruama, mesmo sem investir em grandes espetáculos (à exceção dos programados para o aniversário do município), a Subsecretaria de Cultura tem aberto espaço na Praça Antonio Raposo para apresentação de cantores e grupos locais de todos os estilos. De sexta-feira a domingo, durante todo o verão, de janeiro a março, há shows a partir das 21 horas.

O tema da valorização do artista local já fora levantado em nossa edição de janeiro pela jornalista Regina Mota. Aquilo que ela argumenta em seu texto é adequado para qualquer pequena cidade do interior do país. Mas o que acontece em Saquarema, então? O marasmo só não é total porque alguns bares, restaurantes e casas noturnas estão investindo em música ao vivo. Não são muitas opções, mas é um caminho. Falta, é certo, um maior comprometimento da classe artística da cidade no sentido de melhor organizar-se. A união em torno de ideais comuns pode gerar movimento e força suficientemente fortes para a criação de projetos culturais positivos para o município, de maneira a sensibilizar também o poder público. Algumas iniciativas estão começando a tomar forma, como a elaboração de uma associação de artistas sob o impulso da artista plástica Telma Cavalcanti e mais um pequeno grupo de sonhadores. O Núcleo de Poesia Alberto de Oliveira é ainda um embrião para o trabalho com a literatura, a poesia e a música. A falta de infraestrutura (afinal, não temos ainda por aqui uma boa sala de exposições, um teatro adequado, um centro cultural bem aparelhado, um projeto político-cultural claramente definido...) não pode, no entanto, ser barreira para que iniciativas populares tomem conta das ruas, abrindo espaço para mostras coletivas e individuais de artistas de todas as áreas. Uma feira cultural, patrocinada pela Prefeitura, uma vez por ano, é apenas uma fagulha. Arte é para fazer brilhar fogueiras e estrelas, não importa de que tamanho sejam.

Camilo Mota é poeta, escritor, editor do Jornal Poiésis, cuja edição de fevereiro de 2011 tem o texto acima como editorial.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A queda das máscaras nos contos de Victorino Aguiar


A literatura tem esse mistério de nos levar aos recantos mais profundos da personalidade humana, despertando nossa imaginação e nos levando a conhecer e a refletir melhor sobre o mundo que habitamos. Alguns autores conseguem corresponder a essa qualidade com uma linguagem tão atraente que a leitura começa e nos prende até o fim, como se a mesma já fizesse parte de nossas vidas e não pudéssemos nos afastar dela, como não nos afastamos do ar que respiramos. É nesse envolvimento entre vida e literatura que abordo Victorino Aguiar e seu livro de contos “Ladrão de mulher” (São Paulo, All Print Editora, 2010).

Nos onze contos que compõem o livro, o autor se revela um exímio contador de histórias em que o humor toca de leve os assuntos, fazendo contraposição à crítica — às vezes ácida — à tessitura social, política e humana. Victorino, em certos momentos, chega a brincar com a linguagem de maneira tão natural, que nos pega de surpresa. No conto “Provérbios”, a construção do diálogo paterno através de provérbios é um contraponto da memória e da rigidez dos costumes à realidade das coisas. Aqui, entendendo a realidade como um dolorido processo de tortura durante o regime militar. O paralelo que o autor cria entre o ditado “um raio não cai duas vezes num mesmo lugar” e o “choque elétrico” nos porões da ditadura é um dos momentos mais sublimes da presente obra. A crítica à estrutura política, aliás, é tema recorrente. Aparece em “O carismático”, “O julgamento do poeta”, “João Sem Braço” e “Frederico”. Em todos os casos, Victorino desmascara, literalmente, as personagens e as estruturas sociais que as sustentam.

A ideia da queda das máscaras parece-me o eixo central deste volume de contos. Desde a abertura, com “Uma vez Flamengo”, o que se vê é o autor construindo personagens que, à primeira vista, aparentam uma certa fortaleza, para em seguida mostrar sua fragilidade ou sua verdadeira face social. Assim, o palhaço que surge de surpresa como um assassino. Ou então o casal de “Almas gêmeas”, em que não se sabe ao certo se há uma realidade vivenciada pelo narrador ou se tudo não passa de fruto de sua imaginação. Interessante, ainda, ressaltar alguns aspectos de verdadeiro teatro do absurdo de algumas histórias, ecoando até um clima de realismo fantástico. Enfim, Victorino Aguiar domina a técnica narrativa de tal maneira que consegue ao mesmo tempo nos divertir e nos fazer pensar.

NOTA: O livro “Ladrão de Mulher”, de Victorino Aguiar, já está à venda no site da Livraria Saraiva (saraiva.com.br), no Submarino (submarino.com.br), e também na Livraria Templar em Bacaxá.

Camilo Mota é poeta e jornalista, editor do Jornal Poiésis (www.jornalpoiesis.com) e membro titular da Academia Brasileira de Poesia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

No meio do caminho, havia um livro

Quando Renato e Maria Clara me presentearam com o livro “Bocas do Tempo”, de Eduardo Galeano, tive um lampejo de que iniciaria o ano falando sobre isso. Não sobre a obra (que bem merece um olhar e um dizer atentos), mas do ato de compartilhar leituras, de fazer os livros circularem e ganharem novas dimensões nas vidas das pessoas. Num instante, passam diante de meus olhos uma série de textos e citações que venho colecionando ao longo dos dias e percebo que muito disso é espelhado na minha vida e conduta, tanto pessoal quanto literária. O próprio Jornal Poiésis existe em função de sua capacidade de compartilhar textos e ideias, tendo a poesia como leitmotiv. Daí seu diferencial em relação a outras publicações locais e nacionais.

Ler é um ato de encontro e descoberta. Ao mesmo tempo em que se está entrando no universo de um autor, também estamos estabelecendo e recriando contato com nossas aspirações, defeitos, nosso ser interior, os fantasmas e anjos. Há momentos em que o livro é que nos contempla. Ao entrar numa livraria ou biblioteca, meus olhos percorrem as estantes procurando adivinhar as palavras impressas e, num átimo, descobrir, como por encanto, o significado de eu estar ali em busca de um som em particular. A frase para se meditar um dia inteiro, ou uma vida. Há livros para se ler do início ao fim. Há outros para se colher pérolas forjadas para o momento único e íntimo em que se vê unido ao Cosmos, sem a interferência das ilusões terrenas.

Um amigo me dizia que para saber se um livro era bom, bastava ler a primeira e a última palavra da obra. Se a leitura encadeada de ambas fizesse sentido, o livro seria bom. Não faço ideia de onde surgiu essa teoria minimalista, mas já me diverti bastante com ela. Depois, passei a ver que, entre o alfa e o ômega de toda obra, há uma construção que precisa ser desvelada e sentida para fazer sentido. E, principalmente, que os livros devem ser lidos com a mesma lentidão com que foram escritos.

Sejam os livros impressos ou virtuais, a palavra prossegue sua função de acrescentar conhecimento e alimentar a sensibilidade. Neste 2011, esperamos que muitas iniciativas prosperem no campo do incentivo à leitura, ganhando mais espaço nas escolas, associações de bairro, centros culturais, bibliotecas e nas famílias. O espaço do livro é no coração dos homens.

Camilo Mota é escritor, editor do Jornal Poiésis.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A arte da paz

Faltavam poucos dias para o Natal. Eu, menino de uns dez anos, estava no alto da escadaria, com um horizonte de montanhas e sonhos a minha frente. “Estou esperando para ver logo os presentes que Papai Noel deixará debaixo da minha cama”, eu disse, com olhos brilhando de esperança. O amigo, ao meu lado, fitou-me entre sério e incrédulo: “Mas, Camilo, você ainda acredita nessas coisas?!”. A doce ilusão se desfez num instante. Aquela imagem de carinho que eu nutria no símbolo projetado de minhas esperanças esvaiu-se num repente. E na minha jovem idade, ainda que eu soubesse a não existência daquele ser mítico, era ele uma âncora segura na firmeza de meu afeto, no reconhecimento do amor que me chegava na forma de variados presentes.

Os choques de realidade e ceticismo, no entanto, não apagaram o brilho de meus olhos. Se desfeito um sonho, a mente passou a buscar o sentido mais profundo acerca do Natal. O nascimento de Jesus veio a integrar, com mais vigor, meu caminho de reflexões. Amar ao próximo como a si mesmo. Fazer da paz um sentido de vida. Criar as situações em que a paz seja praticada. Não apenas em um dia no ano, mas em cada dia que se vive. Nesses tempos de hoje, em que consumir é mais importante do que conhecer, até mesmo a figura de Noel se perde no silêncio dos dias da infância. E a imagem de Jesus se confunde com dogmatismos cegos em que o medo tem mais peso que o perdão e o amor.

Esses pensamentos e memórias vêm me habitar neste dezembro, quando muitos desejam aos outros felicidades no Natal e no Ano Novo durante alguns dias e depois simplesmente voltam a se endurecer e a viver na escravidão de seus desejos. Na urgência de se construir um mundo de harmonia, que comece com nossas próprias atitudes conosco mesmo e com nossos semelhantes, acho importante reforçar que carecemos hoje de uma Arte da Paz. Que estejamos alertas para que realmente nos comportemos como cidadãos construtores de um mundo melhor, não somente na noite de Natal. Em nosso trabalho, estamos agindo motivados por inveja, ciúme e ambição, ou o reflexo de nossas ações tem como meta a melhoria do mundo à nossa volta? Afinal, trabalho é ato de louvor e gratidão, e não um mecanismo de escravização ou de suporte às guerras e intrigas. Na família, estamos tendo respeito e carinho por nossos pais, avós, irmãos, filhos? No íntimo de nós mesmos, estamos sendo coerentes com nossos corações?

Neste dezembro que já anuncia um novo ciclo daqui a alguns dias, desejo que tenhamos pensamentos melhores, que ajudemos a construir a realidade mais com atos do que com palavras, mais com palavras verazes do que com rompantes de falsa sabedoria, mais com sabedoria do que movidos pelos desejos e escravas emoções, e tudo isso com a emoção sadia do amor e da paz em nós.

*Camilo Mota é escritor, fotógrafo e jornalista, editor do Jornal Poiésis.