quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Abstinência


Exercício do olhar sobre um tema inspirado pelo escritor e amigo Gerson Valle.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Caminho das flores


Tenho para mim que a vida é uma descoberta cotidiana. Há sempre algo novo, mesmo que se pense ter visto tudo. A natureza se transforma, recria a vida, recompõe os traços. A luz incide sobre tudo e todos.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

E a casa não caiu...

O movimento em torno da conservação da Casa de Cultura Walmir Ayala, em Saquarema, como polo essencialmente cultural traz à tona um conjunto de elementos enriquecedor para reflexões e ações presentes e futuras. Afinal, o que está em jogo não é simplesmente se aquele local deve ou não deve ser transformado no plenário da Câmara de Vereadores, como pleiteiam os legisladores do município. Trata-se, sobretudo, de respeito pela cultura e pela história, de respeito pelas pessoas que pensam e constroem o conhecimento através das artes, em todas as suas manifestações. O suposto acordo entre representantes dos poderes Executivo e Legislativo para ceder a Casa de Cultura para finalidades políticas pecou por ter sido feito sem consulta pública, sem maiores discussões e argumentações. Afinal, os vereadores são eleitos para representarem a população e, para isso, precisam ouvi-la.

A manifestação pública marcada para a tarde-noite de 3 de agosto repercutiu bem além do que se previa. E ela, na verdade, nem chegou a acontecer de fato, mostrando que a ação cultural tem uma força que mobiliza de uma maneira muito mais sutil, provocando abalos nas superestruturas. A mobilização dos agentes culturais aconteceu, principalmente, através de uma convocação através da internet e vários telefonemas, chamando a atenção de órgãos da grande imprensa, e culminando numa reunião de mais de 30 pessoas na Colônia de Pescadores Z-24, local da concentração para a passeata que estava prevista e que não aconteceu por dois simples motivos: a forte chuva que caiu por volta das 18 horas e, principalmente, porque a sessão da Câmara de Vereadores marcada para aquela noite foi cancelada, sob a alegação de que não havia, até então, uma definição do que seria feito em relação à reivindicação da classe artística. A decisão sobre o destino da Casa de Cultura Walmir Ayala foi adiada. Os vereadores optaram pelo silêncio e pelas portas fechadas, passando a responsabilidade para o Executivo tomar um posicionamento.

Enquanto alguns se omitem, a classe artística do município começa a dar sinais de que tem capacidade de se mobilizar (e no encontro havia, inclusive, representantes de municípios vizinhos que se sensibilizaram pela causa e marcaram presença). Na reunião, debateu-se, principalmente, a necessidade de se formar o Conselho Municipal de Cultura, através do fortalecimento do movimento cultural, de seu amadurecimento e de sua ação efetiva para evitar casos como este, em que dois símbolos da cultura local — a Casa de Cultura e a Biblioteca Municipal — sejam tratados como meros “livros que podem ser empacotados à espera de uma estante nova”. A convocação para a estruturação do conselho está prevista para acontecer até o final de agosto.

Enquanto esta crônica-reportagem está sendo escrita, nos bastidores há movimentações que indicam que a Casa de Cultura Walmir Ayala deverá continuar seu destino de foco de luz para o desenvolvimento cultural do município. Mantendo-se ali sua finalidade básica, é preciso, agora, olhar com mais atenção para aquele espaço, conferir-lhe o cuidado que merece para, mais adiante, não ocorrerem, novamente, atitudes unilaterais que venham desrespeitar o cidadão que ainda acredita que o conhecimento adquire-se através da educação e da cultura.

Camilo Mota é escritor, editor do Jornal Poiésis, membro titular da Academia Brasileira de Poesia.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Uma biblioteca que faz acreditar nos sonhos


Enquanto a visão econômica leva muitos a discutirem a aposentadoria dos livros impressos por conta do avanço dos leitores digitais (e-readers), uma iniciativa de um homem simples mostra que temos que ter um enfoque mais humano sobre as coisas, procurando, primeiro, fazer o bem a quem está próximo de nós e dar oportunidade de melhoria de vida e de educação para quem carece de quase tudo. É o que está acontecendo no bairro Manoel Correia, um dos mais pobres e com altos índices de violência no município de Cabo Frio. Ali, o comerciante José Carlos da Silva abriu, ao lado de sua pequena mercearia, uma biblioteca comunitária. Batizado de Projeto Feijão, o espaço de 30 metros quadrados está em atividade desde 2007 e a partir de 2010 iniciou uma proveitosa parceria com a Universidade Estácio de Sá – Campus Cabo Frio, através do suporte fornecido pela bibliotecária Roberta Freitas, pelo professor Marcos Silva e alunas voluntárias do curso de Pedagogia.

A ideia da biblioteca surgiu de uma maneira natural. A filha de José Carlos precisava fazer uma pesquisa para a escola. Não encontrando o que procurava na biblioteca municipal e nem em estabelecimentos de ensino superior da cidade, ele partiu para a criação de uma biblioteca própria, para atender às crianças do bairro. Assim, de início, ele reduziu o espaço de seu comércio para colocar as primeiras prateleiras e receber os livros. Foi chamado de maluco por alguns moradores. Como alguém pode abrir mão das vendas para encher paredes com livros? E ele não parou por aí. Em pouco tempo, os amigos começaram a trazer doações e a biblioteca cresceu, vindo a ocupar todo o cômodo, obrigando-o a transferir seu comércio para a sala ao lado. “Você tem que sonhar, e o sonho você tem que ir em busca dele e não pode desistir”, filosofa José Carlos.

A imagem do feijão, que dá nome ao projeto, é significativa. Segundo José Carlos, a escolha está ligada ao processo de crescimento do vegetal. Ao plantar um grão, a germinação vai levar ao surgimento de uma vagem, representando assim a ideia de crescimento, desenvolvimento e expansão. “O intuito é que o projeto cresça e não permaneça só aqui; que possam sair daqui vários feijõezinhos”, diz ele. “Eu me alegro quando vejo uma pessoa pegar um livro. Hoje um livro pra mim é como se fosse um diamante”, complementa. E finaliza, com sabedoria e esperança: “É necessário você educar as crianças. O livro tem essa importância e valia. As crianças precisam colocar na sua mente que o estudar é uma ponte para o futuro. Quem quer alcançar alguma coisa precisa passar por essa ponte que é a educação”.

A parceria do Projeto Feijão com a Universidade Estácio de Sá está auxiliando na organização do acervo e também em seu crescimento. “Nós implantamos um sistema de empréstimo, através de fichário e com a ajuda das alunas do curso de Pedagogia estamos fazendo uma catalogação prévia dos livros”, informou Roberta Freitas. Contando com cerca de dois mil livros, a biblioteca comunitária está aberta a novas doações. Os interessados em ajudar, podem entrar em contato com Roberta no Campus da Estácio em Cabo Frio (Rodovia General Alfredo Bruno Gomes Martins, s/nº - lote 19, Bairro Braga – Tel. (22) 2646-2100 ramal 2115). Para conhecer mais sobre o projeto acesse o blog Projeto Feijão Biblioteca Comunitária.


Camilo Mota é escritor, jornalista, editor do Jornal Poiésis.

sábado, 17 de julho de 2010

A poesia é outro dia


A poesia é outro dia. Hoje ou amanhã. Os caminhos é que a desvelam. Porteira aberta esse mundo de tempos. Escrevo com a luz também para guardar o que vi ontem.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Espelho junino

O gesto simples, compartilhado. No espelho da vida, refletimos nosso tempo, as experiências, as amizades de infância. Há sempre uma história para se contar.

Sob a bênção de São Pedro

A forte tradição religiosa do município de Saquarema é tema presente no dia a dia de seus habitantes. Está encravada nos gestos, nas falas, na ida às igrejas aos domingos, no sinal da cruz feito quase automaticamente ao se passar em frente à Igreja de Santo Antonio em Bacaxá, nos cantos entoados durante as procissões. Mais ainda no olhar de esperança durante uma celebração ou numa fala solta em meio a um silêncio que não se esperava existisse em meio à multidão. Um silêncio de fé profunda, saindo da garganta de um fiel, dizendo pausadamente: “Sempre peço muita proteção a São Pedro, porque onde eu trabalho não tem chão, só água”. A frase do pescador foi dita à beira da Lagoa de Saquarema, enquanto ajudava a terminar os últimos preparativos para a procissão dos barcos na noite de 29 de junho.

Eu e Regina acompanhamos a festa. O preparativo dos barcos. A procissão marítima indo em direção à praça dos Pescadores. O encontro com a procissão que descia da Igreja Matriz. Esse enlace devocional foi registrado por nossas câmeras. Ficou marcado em nossas memórias digitais e sentimentais. Por um instante, lembro-me de meu pai que, toda noite, antes de dormir, balbucia rezas que a gente nem ouve direito, mas que certamente sobe aos céus para contar de sua fé. Sobem aos céus também os olhares que vimos em Saquarema no Dia de São Pedro. A fala do pescador veio me dizer que nós todos pisamos um chão móvel, incerto, em constante mudança e transformação. Nossa única firmeza é a que vem do alto, quando deixamos entrar em nossos corações o Amor ensinado pelo Mestre.

Camilo Mota é escritor, jornalista, fotógrafo, membro da Academia Brasileira de Poesia e editor do Jornal Poiésis. As fotos deste evento estão no Flickr do Nova Saquarema (www.flickr.com/photos/novasaquarema).